Não tem razão pra ser feliz quem nunca ficou triste sem razão.

Acho um tanto quanto irritante quando acordo triste. O que me irrita é a falta de um motivo: nada de noite mal dormida, nada de briga no dia anterior, nada de tpm. Só uma melancolia insistente, tão imprevisível quanto o clima.
Já estou familiarizada com a sensação de acordar, olhar pela janela, sentir o silêncio e mais um dia nascendo aos poucos. A luz abrindo caminho na escuridão. Tem dias que acho isso inspirador. Enquanto tem outros em que tenho vontade de gritar “DE NOVO ISSO??” e ir fazer as mesmas coisas de sempre, a invencível rotina.
Eu queria entender porque sou capaz de estragar meu dia instantaneamente após acordar, sem motivos aparentes. E quando parei pra pensar, vi que a coisa toda está aí: aparentes. Todas as coisas estressantes, irritantes, chatas e desagradáveis do cotidiano não somem sozinhas. Elas ficam em algum lugar da mente esperando pra se sobressair um pouquinho. O problema raramente fica na superfície.
Nesses dias cinzas, me dá uma vontade gigante de ter a maior liberdade do mundo. Não a estátua. Liberdade mesmo. Só que a minha ideia de liberdade também envolve possibilidade, e aí a coisa fica ainda mais utópica. Eu queria pegar um avião, sozinha, pra qualquer lugar desconhecido. Aprender sozinha uma nova cultura, uma nova língua, e antes de me apegar demais ao lugar ou às pessoas, ir embora pra outro lugar. Eu queria tirar muitas fotos, o tempo todo, de todas as coisas, só pra ficar admirando depois. Eu queria que ninguém soubesse onde eu estou. Algo como “Ei, você viu a Isabella?”"Ah, dizem que ela saiu por aí, foi ser feliz..” E pronto. Isso seria tudo que saberiam sobre o meu paradeiro.
Pode parecer bem infantil querer fugir assim. Mas não é. É verdade que as crianças expõem mais seus sonhos loucos. Mas os adultos são ainda mais ingênuos por os esconderem quando todos os outros o compartilham. Todos aqueles homens de terno e gravata fugiriam se pudessem, e nunca mais voltariam.
Eu queria até que ninguém me perguntasse nada, e aí eu teria tempo pra responder minhas próprias perguntas. Percebo que 98% do meu dia é dedicado a resolver problemas e dúvidas alheias, não só no trabalho. Os outros 2% representam o tempo que tenho pra mim: um banho de 15 minutos com hora marcada, um almoço de 5 minutos (se eu ficar enrolando) e mais algumas refeições beliscadas e nada saudáveis.
Algo que deveria ajudar, mas não ajuda, é quando alguém pergunta como eu estou e realmente quer saber. Não ligo se você me chama de antipática. Mas contar como foi o meu dia é contar todos os problemas que eu resolvi (ou nã0), todas as tarefas chatas que são iguais todo santo dia, e contar tudo isso é algo como reviver. Fora que me sinto menos “livre” quando ficam me sondando desse jeito. Tenho a alma de…sei lá…uma pomba. Não curto gaiolas.
Vejo boas intenções de longe, creio que o mundo precisa delas e fico grata quando são dirigidas a mim. Mas não me sinto animada a aproveitá-las sempre. Não me sinto bem respondendo a perguntas como “Onde você esteve?”, “O que você fez?” e pior ainda, “O que você vai fazer daqui a x horas?”. Me dá raiva só de pensar sobre isso. Me dá raiva ter que avisar alguém sobre minhas próximas ações. E me dá raiva explicar os motivos que me levaram a fazer algo, ainda mais quando é banal. Eu aprecio demais o inesperado pra aceitar uma coisa dessas.
Não sei, exatamente, quais são os meus problemas. Mas sei de onde eles vem, e as fontes são tantas, que não creio poder me livrar delas nessa vida. Enquanto isso, continuo reclamando diariamente do sol que entra pela janela.
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