Texto Pessimista

Não quero ler isso quando estiver velha, porque vai soar como auto-traição.
E não queira ler isso se você for alguém depressivo, está de tpm, se impressiona fácil ou não tem opiniões muito formadas.
A questão é que tudo que tem um lado bom tem um lado ruim. Yin-yang não é só teoria. E eu vivo pensando nesses dois lados de tudo, procurando me manter no meio, conhecido como realidade. Acho mesmo que nada é completamente bom ou ruim.
Enfim. O assunto que me traz aqui hoje é a velhice. Já escrevi muito sobre o fim, a morte, um possível recomeço…mas nunca havia escrito sobre os momentos que os antecedem. Aqueles anos ou minutos, décadas ou segundos, pouco antes do fim chegar.
Vou resumir, se você ainda não percebeu o quão pessimista este texto é: não tem essa de “espírito jovem”, velhice sadia e tudo mais. Repare que eu disse “pessimista”. Mas acabei de dizer que vejo tudo pelo “meio”, pela visão da realidade, sem pender para o bom ou o ruim. Isso me leva a concluir que a realidade, neste caso, é péssima. Está me acompanhando?
Envelhecer pode ser bom, sim. O processo em si. O passar dos anos, as transições da vida. Mas ser velho, não, não é bom, não pode ser.
Quanto mais me sinto feliz por ser jovem, quanto mais coisas legais eu faço, quando faço algo que exige muita flexibilidade e consigo, enfim, quando faço qualquer coisa que só jovens conseguem (e me alegro por isso), uma parte de mim também pensa em quando eu não puder mais.
Acho que a vida é uma constante evolução. Eu, pelo menos, estou sempre buscando o aprimoramento, o crescimento intelectual. Mas acredito que chegue um momento em que eu não possa mais. Porque vou perceber que não há mais tempo. Que está quase na hora de ir.
E pra mim ser velho é isso. Sentir o fim próximo, quase te tocando. E, por Deus, como isso pode ser feliz? Como deixar para trás todas as pessoas que eu amo, todas as coisas que eu conquistei, tudo aquilo que eu sou? Como abandonar com alegria toda uma existência?
E não importa se eu tive uma vida gloriosa. Eu não acredito realmente que no fim isso importe. Aliás, quanto melhor a vida tiver sido, tão pior será abandoná-la. Talvez seja mais fácil morrer se a sua vida foi péssima e a morte será um conforto.
Mas quem quer levar uma vida péssima pra morrer feliz? Ninguém. Por isso todos tentam fazer o contrário, fingindo que são velhinhos felizes e de bem com a vida (e com a morte). E o pior, sei que eu também vou tentar quando minha hora estiver chegando. Porque ninguém vive se ficar pensando em morrer. Não sei como é sentir isso mas, no fundo da minha provável inocência, imagino que todos os velhos pensem com tristeza na morte, mascarados que sejam.
Então algumas vezes eu sofro pelos outros. Sofro quando vejo velhinhos alegres, porque gostaria de fazer eles viverem para sempre e tornar aquelas alegrias genuínas. Queria que ninguém precisasse sorrir quando só está esperando.
E sofro também pelas pessoas que deixamos pelo caminho. Como dá pra ser um velhinho feliz vendo todos os seus amigos, seus irmãos (em alguns casos, os dois são a mesma coisa), o amor da sua vida, todos morrendo, e saber que sua vez logo chega?
Então não vou terminar esse texto com uma frase tipo “Curta a sua vida enquanto você pode, aproveite o máximo” e todas essas que vejo por aí, embora algumas delas sirvam nos momentos de fraqueza. Vou terminar do jeito que comecei: realista.
Curta a sua vida, ou não curta. Tanto faz. Todos os seus arrependimentos e glórias irão embora com você, e nenhum deles vai evitar que você morra.

I’ll face myself, to cross out what I’ve become.
Erase myself, and let go of what I’ve done.
Linkin Park

(Vou olhar pra mim mesmo e riscar o que me tornei. Me apagar, e deixar ir tudo o que eu fiz.)

Post Scriptuns:

Muitas pessoas me escrevem agradecendo por algum texto meu ter alegrado o dia delas, ou pelo blog ter ajudado em algo. Sei que isso não vai acontecer com este post, ele não alegrou dias nem ajudou em algo, no máximo mostrou que ainda existe alguém disposto a lidar com realidade como ela é. Aproveito para agradecer a quem leu e me desculpar por ter provavelmente destruído um pouco da sua alegria (principalmente se você for velho), mas eu avisei no começo.
E quero deixar claro também que quando usei o termo “velho” neste texto, não foi de forma pejorativa, mesmo porque ser velho não é ofensa (se você não é, vai chegar lá). Apenas julgo esta como a palavra mais honesta e clara para transmitir a ideia.
E sei que é muito lindo quando dizem “jovens de 85 anos” naquelas reportagens sobre bailes da 3ª idade. Mas minha filosofia me diz pra falar a verdade. Eles não são jovens.

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Um comentário em “Texto Pessimista

  1. Bruna Deliberalli disse:

    Por incrível que pareça (como se isso fosse novidade), eu adorei o texto, Bells. De verdade. Não acabou com o meu dia, com o meu humor ou com qualquer coisa que eu havia planejado pra hoje. Me deu um novo horizonte, em que o que prevalece é a realidade, a qual eu também sou muito ligada.
    A única coisa que eu, talvez, vejo de um novo jeito é essa perda total de quando morremos. Não acho que tudo o que aprendemos, vivemos e conquistamos seja em vão depois da morte. Eu acredito que a alma é infinita e que depois dessa aprendizagem (como eu gosto de chamar o ciclo da vida) esteja apenas completando antigas aprendizagens para que possamos viver outras futuramente. Mas cada um tem uma maneira de olhar as coisas. O bom é que não existe nem certo e nem errado, apenas o desconhecido.

    Beijos e continue assim.

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