Nós, Robôs

Muito se usa a robótica para estudar o cérebro humano, que está longe de ser um território completamente conhecido. Por consequência, criam-se (ou tenta-se criar) robôs que agem como humanos, e indo além, que pensam como humanos. Li um livro cujo primeiro capítulo é dedicado a explicar como é difícil transferir aquilo que somos capazes de fazer para um computador. Um computador, por exemplo, não consegue ver como vemos nem com a mais avançada câmera, porque nossa visão não se trata só de captura de imagem, mas de uma complicada interpretação que segue de tudo que observamos. E cada vez parecemos estar mais perto de desenvolver um humanoide com faculdades semelhantes às nossas, por maiores que sejam os desafios. (não quis me estender em bibliografias no meio do texto, mas na última frase cito o tal livro)

A robótica, enquanto máquinas semelhantes a humanos (pode chamar de androides), me parece um paradoxo. Queremos criar robôs que sejam praticamente humanos, mas ao mesmo tempo, temos medo disto. Mesmo que fizéssemos robôs capazes de pensar como um humano, ele não seria igual a nós, pois máquinas não erram a menos que as façamos programadas para errar.  Portanto, apesar de todo este esforço em copiarmos a nós mesmos, acredito que nunca quisemos isto de verdade pois sabemos que somos falhos. Estamos tentando nos aprimorar externamente.

Em “Eu, Robô” são fundamentadas as Três Leis da Robótica, que viraram um grande legado de Asimov para a ficção científica. Para aqueles que não conhecem, as três leis são:

  • 1ª Lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal.
  • 2ª Lei: Um robô deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei.
  • 3ª Lei: Um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e/ou a Segunda Lei.

Basicamente, estas leis buscam preservar a coexistência de humanos e robôs. Mas a mim parece que é uma forma de manter os humanos sempre acima dos robôs em matéria de poder. “Ora, mas isto não é o mais sábio a se fazer?”, você poderia me perguntar. Não creio que seja. Há muito tempo nós, humanos, nos consideramos a “espécie mais desenvolvida”, o “supra-sumo (nossa, que expressão mais velha…) da evolução”, os “animais racionais” etc. Supondo que criemos máquinas à nossa imagem e semelhança (assim como criamos Deus, segundo Nietszche), exceto na capacidade de errar, não seria natural deixarmos o poder nas mãos delas? Não seriam elas um progresso artificial de nossa própria espécie?

Acompanho um pouco do esforço que se faz para criar um robô cada vez mais parecido com um humano, e temo que em algum momento iremos conseguir. Quando este dia chegar, milhões de questionamentos irão surgir, mas eu gostaria de focar no que me parece mais primordial: por que os robôs deveriam nos obedecer?

No que observo do mundo, a desonestidade cresce. A competição em nossa espécie não é (sempre) por comida, parceiros(as) ou território, como costuma ser nas outras espécies. Nós temos a ganância, a cobiça, sentimentos que nos levam a absurdos que deveriam ser impedidos por outros sentimentos, mas nem sempre são. Por outro lado, vemos pessoas com valores considerados bons serem massacradas por demonstrarem amor, afeto ou compaixão quando estas emoções contrariam interesses maiores. Será possível chegar em um ponto em que os sentimentos se tornem uma desvantagem?

Talvez a criação de um cérebro positrônico seja a evolução. Talvez nossa capacidade de ter emoções não seja mais útil num mundo futuro (ao menos o mundo atual parece caminhar para isso), o que faria os robôs, nossas próprias criações, serem selecionados pelo meio. Muito utópico? Provavelmente. Mas serve para demonstrar o ponto de que tememos nossos próprios defeitos a ponto de criarmos um ser desprovido deles, e ainda assim queremos controlar este ser e manter nossa superioridade.

Provavelmente deixei mais questionamentos do que respostas, mas questionamentos levam a reflexões. Robôs não teriam os defeitos que temos (e talvez um destes defeitos seja ter sentimentos demais). Se um dia conseguirmos criar algo tão perfeito como imaginou Asimov há 60 anos, talvez fosse mais sábio deixá-los governar e nos resignarmos à nossa obsolescência. É uma pena que sejamos egoístas demais para isso.

* Recentemente, reli “Eu, Robô”, de Isaac Asimov, e comecei a ler “Como a mente funciona” de Steven Pinker. Esta informação seria inútil se não tivesse gerado as reflexões que tentei traduzir neste texto.

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Um comentário em “Nós, Robôs

  1. Isabella,

    Ótimo texto!
    Qualquer criação humana pode ser considerada parte do seu fenótipo (ou seja, da expressão das suas características genotípicas mais a influência ambiental). Sendo assim, poderíamos pensar em robôs ou outras máquinas como parte do nosso “fenótipo expandido”, assim como a literatura, a música, a ciência ou as religiões. Assim como essas outras atividades humanas, acredito que também a robótica não emulará um humano, mas talvez tentará criar algum tipo de condição humana artificial, que seria inerentemente não-humana (os pós-humana). Confuso isso…
    De qualquer forma, não sei até que ponto robôs “perfeitos” seriam capazes de sobreviver em um ambiente em constante modificação. Guardadas as proporções, podemos pensar em um sistema operacional: em um ambiente estável, o Windows funciona de forma quase perfeita; mas sabemos que esse software não tem como ser executado em ambientes estáveis, o que faz dele sempre menos eficiente do que poderia.
    O que seria um robô perfeito? Seria um que pudesse se modificar conforme o meio se altera, passando tais características para seus “descendentes” em uma espécie de herança lamarckista? Ele seria suficientemente rápido para se adequar às alterações ambientais?
    Sobre o Asimov, gosto muito dele. Já escrevi alguma coisa no meu blog. Se puder, dê uma olhada lá: http://charlesmorphy.blogspot.com.br/2012/01/breves-resenhas-antologia-2-de-isaac.html
    Abraço!

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